A Teologia da Libertação: Gustavo Gutiérrez e sua percepção sobre pobreza na América Latina

 André Luis Araujo Pereira Junior [1]

Resumo: Esse trabalho visa elucidar como a Teologia da Libertação se inserem no contexto religioso latino-americano, e a influência das discussões religiosas da Igreja Católica favoreceu esse movimento. Além de tratar do Surgimento da a Teologia da Libertação, e como Gustavo Gutiérrez utiliza-se do discurso para criar seus argumentos, e utilizamos dos métodos da História da Religião.

 Palavras-Chave: Teologia da Libertação –Teologia – América Latina - História

 Introdução

Para falarmos sobre Teologia da Libertação, em primeiro momento é preciso entender o que seria a mesma, e em seguida elucidar de forma bem breve as elações feitas por Gustavo Gutiérrez para a construção dessa teologia que passou a dar voz aos que ficava a margem, porém, será necessária uma breve contextualização. Com base na definição do autor Francisco José Silva Gomes sobre História das Religiões, que seria a matéria cuja análise estaria voltada para o desenvolvimento e mudanças históricas, interessando-se pelos estudos dos fatos religiosos de diferentes épocas, povos e em suas infinitas manifestações [2], fica mais evidente que esse breve trabalho tem a necessidade de fazer uma breve contextualização.

            Nesse sentido, é necessário fazer compreender que muito mais que um movimento religioso a “Teologia da Libertação”, que para alguns possuía pilares fundamentados pelo Padre e Teólogo Gustavo Gutiérrez, e sua contribuição na maior parte dos países da América Latina com as lutas políticas contra a Ditadura, e associação com os movimentos sociais daquele momento. Um grande impacto dessa teologia é a visibilidade que traz ao retomar as classes mais pobres da sociedade, principalmente dos latino-americanas, como principal objeto de evangelização e missão, trazendo com isso novas perspectivas.

Contexto Histórico e Teológico

            É importante destacar que não é apenas o contexto histórico e social desse momento que irá influenciar essa teologia, como pode ser visto na dissertação de mestrado de Neusa Regina Carneiro que aponta os seguintes fatores:

(...) tiveram influência marcante nesse processo, citando-se, em especial, o Concílio Vaticano II e as grandes Conferências Episcopais Latino-Americanas. O Concílio, surpreendeu o mundo, principalmente a América Latina, propiciando aberturas inovadoras às diversas iniciativas eclesiais.[3]

 

               Na visão da autora, destaca que para entender esse movimento é preciso ter noção de que as decisões eclesiásticas tomadas nessas reuniões, em sua maioria fazem parte de um contexto histórico e social, muito desigual na década de 1960, não apenas no mundo, mas principalmente a América Latina.

Num contexto de mundo, podemos perceber um estilo de governo no século XIX até o XX na América Latina, que manteve a exploração das classes operárias nas atividades de mineração, agropecuária e extrativismo, já as relações sociais, culturais e as relações de produção transmitiam elementos característicos da sociedade de castas, ou seja, uma sociedade completamente desigual[4], e essa relação não modificou-se muito durante a vida de Gutiérrez.

É importante destacar que é graças ao Concilio do Vaticano II que se estabeleceu de forma mais clara a visibilidade aos grupos que viviam sobre a égide da pobreza, não que não tivesse ocorrido outras críticas as desigualdades produzidas pelo capitalismo, como o historiador Marcus Baccega, sobre o Concilio, afirma:

Assim, resgatando a tônica de crítica ao liberalismo econômico presente no pensamento social católico desde de Leão XIII, a igreja adensa sua insatisfação estrutural para com a ordem econômica e social engendrada sob o signo do capitalismo e propugna pela instauração de uma sociedade mais democrática em que os direitos fundamentais dos indivíduos e as exigências  coletivas  de satisfação econômicas sejam plenamente contemplados.[5]

            Nesse sentido, fica muito evidente a insatisfação da igreja com a desigualdade e da noção que seria preciso retornar a pregação, os rituais e as lutas para as demandas mais populares que compunha maior parte dos adeptos do Catolicismo, no mundo e na America Latina. Com o desenrolar dessas discussões, surge um nome na construção de um fazer teológico que fosse compatível com essas demandas, o padre e teólogo Gustavo Gutiérrez, que nasceu no Peru, teve participações no Concilio do Vaticano II e nas Conferências Episcopais Latino-Americanas.

Biografia de Gustavo Gutiérrez e suas perspectivas teológicas

            Gustavo Gutiérrez nasceu em Lima, no Peru, em 8 de junho de 1928. Filho de Gustavo Gutiérrez Merino e Raquel Díaz, o jovem possuía ascendência indígena, fazendo com que conhecesse desde cedo à realidade da pobreza. Tinha pais religiosos que o ensinou a crença da gratuidade do amor de Deus. Teve uma infância difícil e sofreu uma lesão aos doze anos de idade, o que lhe causou osteomielite (inflamação de medula óssea). Foram longos anos de tratamento, tendo permanecido até aos dezoito anos em cadeira de rodas.

          Com 24 anos, desistiu da faculdade de medica e desejou participar do Seminário, porém estava muito “velho” e foi mandado para Europa para concluir sua formação. Nesse ponto ele foi para a universidade de Lyon na França estudar Teologia; licenciou-se também em Filosofia e Psicologia, na Universidade Católica de Louvain na Bélgica, onde anos mais tarde retornou para defender sua tese de doutorado. A formação intelectual teológica europeia de Gutiérrez aconteceu no período do Pontificado de Pio XII (1939-1958), onde a base Teológica era em favor apenas da Teologia da Salvação. Teve seu ordenamento a sacerdote em 1959, no seguinte retornou para America Latina, para sua terra natal, o Peru, onde foi designado para trabalhar nas partes mais pobres de Lima, mais especificamente, na paróquia de Rímac. Dedicou-se muito aos movimentos cristãos e destacou-se no trabalho pastoral. Nessa mesma época iniciou sua carreira de docente na Universidade Católica de Lima no Peru.

            Segundo Bittencourt, os questionamentos do Teólogo sobre do motivos da expansão da pobreza, que se tornava cada vez mais palpável e visível, e o fato dela ser um dificultador de propagação do evangelho, pois como poderia dizer aos pobres que Deus os ama apesar do seu estado de vida miserável, a autora aponta o seguinte  sobre a visão de Gutiérrez:

Reconheceu que o povo sofrido e oprimido foram negados todos os direitos mais elementares de vida, saúde, educação, moradia. Essa percepção o levou a constatar que essa realidade cruel não era somente de seu país, mas era a problemática de todos os países latino-americanos.[6]

 

               Nesse caso, sua teologia deveria ser usada com a necessidade de libertar os indivíduos das péssimas condições de vida que passam na América latina como um todo, a Teologia da Libertação ganha força através da sua possibilidade de interação com os movimentos sociais e os próprios movimentos internos da igreja que lutavam contra a opressão de grupos dominantes, cabe afirmar que Gutierrez também traz a noção que é impossível entender a opressão que esse grupo vive sem trazer á luz a História, ou seja, uma certo uso da história para justificar sua Teologia [7].

            Cabe destacar que essa teologia se aproxima das leituras Marxistas de sociedade, o que faz ela ter uma grande rivalidade com as alas mais conservadoras da igreja, é necessário dizer que a igreja católica não tinha uma visão hegemônica com relação a “Teologia da Libertação” e tinha uma adesão minoritária a essa visão.

Conclusão

            Portanto, faz-se necessário entender que a Teologia da Libertação nasceu da necessidade e percepção de que a miséria de um grupo social não advém do nada, e sim pelo motivo de que grupos são silenciados, explorados e jogados para a desigualdade por um regime de governo que pensa apenas na concentração de capital e de poder nas mãos dos poderosos.

            Salienta-se também que a relação desses indivíduos excluídos com a religião tornaram a percepção sobre a fé uma forma de resistir e lutar, importante perceber também que é graças as considerações e a teologia articulada por Gutierrez, que vão incentivar no cenário brasileiro a produção intelectual de Paulo Freire sobre educação, nesse sentido esse é o intuído desse artigo, entender em primeiro momento o que é teologia da libertação? Estabelecer quem foi seu precursor e sua visão sobre a pobreza na America Latina, além de perceber a diferença de sua teologia para as demais.

 

Referências:

BITTENCOURT, Neusa Regina Carneiro. A teologia a partir do reverso da história: uma interpretação do modo de fazer teologia de Gustavo Gutiérrez. / Neusa Regina Carneiro Bittencourt. – Porto Alegre, 2012.

 BOFF, Leonardo (Org). A Teologia da Libertação Balanços e Perspectivas. São Paulo: Ática, 1996.

 BOFF, Leonardo; BOFF Clovis, Como fazer teologia da libertação. Petrópolis: Vozes, 2010.

 FRAGMENTOS DE CULTURA, Goiânia, v. 22, n. 2, p. 185-191, abr./jun. 2012.

 FOLLEGATI ZANINI, C.; BACCEGA, M.; BALAN ZAPPIA, R. A Teologia da Libertação e a opção preferencial pelos pobres na América Latina. Revista História & Perspectivas, v. 24, n. 44, 15 jul. 2011

 GIBELLINI, Rosino. A Teologia no século XX. São Paulo: Loyola, 1988. LÖWY, Michel. .A guerra dos deuses: religião e política na América Latina. Petrópolis: Vozes, 2000.

 GOMES, F. J. S. ‘A Religião como Objeto da História.’ In: LIMA, Lana Lage da Gama; HONORATO, Cézar Teixeira; CIRIBELLI, Marilda Correa; SILVA, Francisco Carlos Teixeira da.. (Org.). História e Religião. Rio de Janeiro: FAPERJ/MAUAD, 2002,

GUTIÉRREZ, G., Hablar de Dios desde el sufrimiento del inocente. Una reflexion sobre el libro de Job. CEP. Lima, 1986.

 MATA, Sérgio da. História e Religião. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2010.

REIMER, Ivoni Richeter.Trabalhos acadêmicos: modelos, normas e conteúdos São Leopoldo: Oikos, 2012. SUSIN, Luiz Carlos (Org.). O mar se abriu. Trinta anos de teologia na América-Latina. São Paulo: Soter; Loyola, 2000.

 

 



[1] Graduando pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Bolsista da Fundação Carlos Chagas de Amparo e Pesquisa do Rio de Janeiro (FAPERJ) e integrante dos Laborátorios de Pesquisa sediados na UFRRJ, que são: o  Núcleo de estudos sobre narrativas e medievalismos (Linhas) e o Laboratório de estudos dos Protestantismos (LABEP).

[2] GOMES, F. J. S. ‘A Religião como Objeto da História.’ In: LIMA, Lana Lage da Gama; HONORATO, Cézar Teixeira; CIRIBELLI, Marilda Correa; SILVA, Francisco Carlos Teixeira da.. (Org.). História e Religião. Rio de Janeiro: FAPERJ/MAUAD, 2002, p. 13.

[3] BITTENCOURT, Neusa Regina Carneiro. A teologia a partir do reverso da história: uma interpretação do modo de fazer teologia de Gustavo Gutiérrez. / Neusa Regina Carneiro Bittencourt. – Porto Alegre, 2012. Pp. 11

[4] IANNI, Octavio. “O Estado oligárquico.” In. A formação do Estado populista na América Latina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975, p. 59-72.

 [5] FOLLEGATI ZANINI, C.; BACCEGA, M.; BALAN ZAPPIA, R. A Teologia da Libertação e a opção preferencial pelos pobres na América Latina. Revista História & Perspectivas, v. 24, n. 44, 15 jul. 2011. p.80

 [6] BITTENCOURT, Neusa Regina Carneiro. Op. Cit. pp 36

[7] Para entender um pouco melhor essa perspectiva faça Leitura: FOLLEGATI ZANINI, C.; BACCEGA, M.; BALAN ZAPPIA, R. op. cit. p. 91-92

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