Qual o papel do estudioso no trajeto de interpretar a arte rupestre, ou grifos rupestres, em si mesmos?

 

 Nathara Marriel Mariano[1]

 

Introdução

 

            Ao começar a pensar a arte rupestre, ou grifos rupestres, no Brasil, o primeiro ponto a ser mencionado gira em torno da chegada do homem à América. Hoje, podemos falar de tal coisa, pois, as técnicas de escavação e datação foram desenvolvidas, e a algum tempo podemos afirmar, com certa certeza, as datas de chegada do homem à América. Porém, ainda hoje, existem certas divergências sobre como o homem chegou a América, e ainda sobre qual foi a sua rota após essa chegada. Para os primeiros estudiosos desses eventos, estão os clovistas[2], os quais, defenderam ferrenhamente a chegada do homem à América, única e exclusivamente, pelo estreito de Bering. O homem teria cruzado o estreito, por um corredor de terra definido entre a Sibéria e o Alasca[3], em algum momento em que o nível do mar estava bem mais baixo que o atual. Desta forma, para esses estudiosos, o homem apenas se desloca para o sul a partir do interior da América do norte, onde as datações da presença humana estão em torno de 11,4 anos.

            Porém, não apenas os clovistas teorizam a chegada do homem à América, outros grupos de estudiosos também vão enveredar pelo mesmo caminho, porém, com afirmações um pouco diferentes. Desta forma, seguindo os passos de outros estudiosos desse período, alguns acreditam que, na América do Sul há evidências, mais do que suficientes, da presença humana na América, as quais, datam de 13 mil a 14 mil anos[4], ou seja, algo antes da presença humana na América do Norte. Alguns estudiosos trilham a linha de pensamento, a qual, nos faz pensar que a ocupação da América do Sul foi anterior, ou ao mesmo tempo, que a da América do Norte. E por assim dizer, essas afirmações no obrigam a pensar em outros pontos, como por exemplo, a entrada do homem no continente, a qual, não teria sido única e exclusivamente pelo estreio de Bering, pois, essas afirmações, nos obriga a admitir que o Homem pré-histórico dominava a técnica da navegação[5].

            Essas informações são importantes para compreendermos o campo no qual estamos pisando, um campo cheio de discordâncias até na afirmação principal da chegada do homem à América. Porém o foco deste trabalho não será a chegada do homem ao continente, mas, à luz desses estudos, está a arte rupestre, a qual, também estará em meio a essas discussões, não apenas de datação, mas também sobre interpretação e produção. Há muitas discordâncias no estudo da arte rupestre, no que diz respeito a ela mesma, isso nos suscita o questionamento sobre qual o papel do estudioso no trajeto de interpretar a arte rupestre, ou grifos rupestres, em si mesmos? Sendo assim, este trabalho se esforçará em responder tal problemática, e para além disso, situar o estudioso no papel da interpretação da arte rupestre pelo que ela é.

 

Desenvolvimento

 

            O autor Edward Carr, nos apresenta um significado sobre o ofício do historiador, o qual, em meu ponto de vista, também pode ser estendido para os estudiosos sobre a arte rupestre brasileira. Segundo Edward Carr, o historiador é necessariamente um selecionador[6], pois, dentre inúmeros fatos e formas de contar uma história, o historiador sempre faz a escolha de contar usando alguns fatos, e não outros, e de uma forma, e não de outra. Sendo assim, podemos alongar esse pensamento para os especialistas em estudo da arte rupestre, pois, existem várias formas possíveis dessas artes serem interpretadas, porém, essas pessoas escolhem interpreta-las de um jeito e não de outro.

            O primeiro ponto a ser discutido seria o do próprio termo “arte rupestre”, pois, para alguns autores, esse seria um termo inadequado, de forma que seria melhor denominar os registros como “grafismos”. A própria autora Niède Guidon, a qual, se fará presente em grande parte deste texto, se apropria do termo “grafismo” para definir o material produzido pelos homem pré-histórico. Porém, não há uma grande concordância sobre isso, pois, podemos perceber que, ao ponto de vista de Madu Gaspar, a autora nos afirma que:

 

Considero “arte rupestre” uma expressão já consagrada e que pode ser mantida, especialmente se tratada no sentido sugerido por André Prous — ao enfatizar que as palavras “arte” e “artista” têm a mesma raiz latina que “artesão”, sendo arte o conhecimento de regras que permitem realizar uma obra perfeitamente adequada a sua finalidade. [7]

 

            Sendo assim, podemos compreender melhor quando falamos sobre a liberdade do estudioso em poder escolher que caminho seguir, em relação ao que irá defender. Apenas nessa simples discordância de visões sobre a classificação dos registros rupestres, podemos ver que cada autor faz uma escolha, escolhas essas, as quais, são baseadas não apenas em seu conhecimento, mas também em sobre o que esse autor pensa sobre seu objeto de estudo. Portanto, não apenas o estudo do autor está representado nessa escolha, mas também, como esse autor enxerga aquilo que esta diante dele.

            O ponto mais interessante sobre o papel do estudioso no momento de falar sobre a arte rupestre, se da quando tocamos no assunto sobre o significado da arte para aquelas pessoas. Muitas vezes, as avaliações dos estudiosos podem estar embebidas em conceitos modernos, os quais, provavelmente contaminarão sua forma de pensar sobre um passado muito distante. Isso fica claro quando, no século XIX, os estudiosos começam a pensar que a arte rupestre era a expressão puramente da vontade do homem pré-histórico, ou seja, os grafismos estariam ali simplesmente por estar, por puro prazer sobre a arte. Porém, esta forma de pensar está embebida em uma ideia da arte da modernidade, e não contemplando a realidade do homem pré-histórico, tirando assim de sua arte, todo significado complexo, ao qual, aquele material se refere.

            Por outro lado, temos aqueles autores, os quais, vão fazer reflexões acerca do possível significado místico daquelas gravuras.  Desta forma, os grafismos passaram a ser vistos como formas de controlar aquilo que era desenhado nas paredes das cavernas. Partindo desse princípio, a explicação passa a beber da fonte do totemismo para conseguir explicar os grifos existentes. Porém, essa escolha na forma de interpretar essas obras também está embebida em uma ideia de misticismo muito forte, a qual, impossibilita o entendimento pleno dessas obras, e ainda subtrai delas todo significado social, a qual elas possam ter. Desta forma, observamos mais um ponto de vista escolhido pelo estudioso, o qual, nem sempre contempla a totalidade do significado da arte rupestre.

            Contrapondo essas ideias, temos os estudiosos, como Madu Gaspar, aos quais, acreditam que a arte rupestre possui um significado, o qual, vai além apenas da arte pela arte, e muito mais além do misticismo, o qual, insistem em inserir nessas populações. Para esses estudiosos, esse tipo de expressão artística está fortemente interligada com a vida daquele indivíduo, ou seja, não são apenas pinturas sem significado, mas sim estão significando aquilo que existe naquela sociedade. Para exemplificar essa fala, temos Madu Gaspar, autora que acredita na seguinte afirmação:

 

Com este exemplo quero enfatizar que as diferentes manifestações de arte rupestre brasileira também integravam a vida cotidiana dos diferentes grupos pré-históricos que a produziram. Em certos casos, poderiam ser complementares à fascinante pintura corporal ainda praticada por algumas tribos brasileiras.[8]

 

            Porém, não apenas Madu Gaspar nos oferece um panorama sobre como essa arte está ligada à vida do homem pré-histórico, pois, Niède Guidon parece compartilhar da mesma linha de raciocínio ao afirmar que:

 

A base econômica continuava sendo a caça, a coleta e a pesca; as pinturas rupestres retratam com detalhes a evolução sociocultural desses grupos durante pelo menos 6 mil anos, o que constitui um dos mais longos e importantes arquivos visuais sobre a Humanidade disponível, hoje, no mundo.[9]

 

            Desta forma, podemos afirmar que alguns especialistas escolhem afirmar que, a arte rupestre está presente e ligada à vida das pessoas, as quais, a produziram. Sendo assim, esses estudiosos não apenas conseguem se afastar da ideia contemporânea, a qual, poderia embeber suas conclusões a respeito da arte, mas conseguem observar esses grifos à luz da sociedade que o produziu, e ainda inseri-lo no meio, o qual, está ligado a ele.

            A ideia de que os grafismos podem ser interpretados em sua própria forma, ou seja, em si mesmos, permeia os estudos de autores como Madu Gaspar. Além disso, esse parece ser o caminho mais plausível a ser seguido, pois, os grifos, nitidamente, representam figuras conhecidas pelo homem pré-histórico, ou seja, figuras que representam o mundo sensível desse homem. Muitas vezes essas figuras possuem movimentos, no sentido de representar cultos, ou a prática da caçada, tudo em meio a realidades, as quais, existiam no mundo visível daquele homem. Desta forma, é ilógico afastar a arte rupestre da realidade social do homem pré-histórico, pois, isso acarretaria em uma visão moderna transportada para o mundo da pré-história, e consequentemente, corromperia o julgamento do autor sobre o significado dessas obras. Porém, como todos os outros, esse ponto de vista tem a ver com uma escolha, e com algo que está ligado ao consciente, e inconsciente, daquele que está produzindo e escolhendo uma forma de contar essa história.

 

Conclusão

 

            Partindo de tudo que for analisado e de todas as afirmações, as quais, foram feitas durante o texto, cabe-nos a percepção de que, o papel do estudioso na interpretação da arte rupestre, está bastante ligado ao papel do historiador ao escrever a história. Desta forma, o especialista em arte rupestre também é um selecionador, e também coloca seus desejos e crenças em evidência quando seleciona uma forma de interpretar aqueles grifos, e não outras. Essa afirmação está extremamente clara quando nos deparamos com várias hipóteses de interpretar os grifos, de forma que, cada autor escolhe a que lhe parece mais plausível, e qual lhe faz mais sentido, mesmo não sendo tão coerente algumas vezes.

            Desta forma, podemos concordar que o autor pinçará aquilo que lhe convém estudar, aquelas afirmações, as quais, lhe convém fazer, e ainda mais, as interpretações que fazem sentido em sua visão. Por esse motivo, há tanta discordância entre os significados da arte rupestre, e também tantos embates entre correntes de estudiosos. Porém, isso é algo que faz parte da pesquisa, pois, o autor não tem a opção de afastar suas convicções quando está em um processo de produção, desta forma, tudo que é produzido por ele sempre estará embebido em suas crenças, fazendo-o selecionar uma forma de interpretar.

 

Referências Bibliográficas

 

CARR, Edward Hallet. Que é História? São Paulo: Paz e Terra, 2002.

GASPAR, Madu. A arte rupestre no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.

GUIDON, Niéde. ‘As ocupações pré-históricas do Brasil (excetuando a Amazônia)’ In: CUNHA, Manuela Carneiro da. ‘Introdução a uma história indígena’ In: História dos Índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras: FAPESP/SMC, 1992.

NEVES, Walter. Quando e como os humanos chegaram à América. In: ______. O povo de Luzia. São Paulo: Globo, 2008.



[1] - Graduanda de Licenciatura Plena em História (UFRRJ)

[2] - NEVES, Walter. Quando e como os humanos chegaram à América. In: ______. O povo de Luzia. São Paulo: Globo, 2008, p.66.

[3] - NEVES, Walter. Quando e como os humanos chegaram à América. In: ______. O povo de Luzia. São Paulo: Globo, 2008, p.67.

[4] - NEVES, Walter. Quando e como os humanos chegaram à América. In: ______. O povo de Luzia. São Paulo: Globo, 2008, p.70.

[5] - GUIDON, Niéde. ‘As ocupações pré-históricas do Brasil (excetuando a Amazônia)’ In: CUNHA, Manuela Carneiro da. ‘Introdução a uma história indígena’ In: História dos Índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras: FAPESP/SMC, 1992. p. 38.

[6] - CARR, Edward Hallet. Que é História? São Paulo: Paz e Terra, 2002, p. 39.

[7] - GASPAR, Madu. A arte rupestre no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 2006, p.5.

[8] - GASPAR, Madu. A arte rupestre no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 2006, p.5.

[9] - GUIDON, Niéde. ‘As ocupações pré-históricas do Brasil (excetuando a Amazônia)’ In: CUNHA, Manuela Carneiro da. ‘Introdução a uma história indígena’ In: História dos Índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras: FAPESP/SMC, 1992. p. 44.

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