UMA PERSPECTIVA CANDOMBLECISTA SOBRE O TRABALHO: AS TAREFAS EXECUTADAS NOS TERREIROS
Ariely de Oliveira Araujo [1]
RESUMO
O
trabalho remunerado, individualizado e hiperespecializado é tão comum na
cultura europeia e ocidental que pensar em uma outra forma pode ser um tanto
quanto difícil. No entanto, a forma como os trabalhos são executados dentro dos
terreiros candomblecistas pode ser um ótimo contraste com essa forma de
entender as dinâmicas de trabalho entre os indivíduos. Logo, esse artigo
pretende entender o trabalho executado por mulheres dentro dessas casas de
santo, o senso de coletividade presente nesse espaço, e o porquê dessas
mulheres estarem num sentido contracorrente e contra hegemônico num sistema
capitalista: de executarem tarefas sem remuneração. A construção dessa pesquisa
se dá partir da contribuição das valiosas empirias de uma iyawo, e de uma
egbomi de terreiros situados no estado do Rio de Janeiro, e também de uma
cristã da Assembleia de Deus situado no Rio de Janeiro.
Palavras-chave:
trabalho; barracão; terreiro; casa de santo; coletividade.
A partir do modo de entender “trabalho” pode se ter muitas colocações, podendo ser o trabalho assalariado, como o capitalismo ocidental confere papel principal, ou trabalho de reprodução, como pretendem as feministas brigar pela legitimidade do mesmo, e até mesmo, pode ser o trabalho definido pela Física, que está relacionado à força e deslocamento. No entanto, essa pesquisa tratará de um tipo bem específico de trabalho, os executados por mulheres de axé, ou seja, mulheres candomblecistas que cultuam os Orixás, dentro das casas de santo.
O Candomblé
Pensar
o trabalho dentro da casa de santo de candomblé, é pensar no coletivo, é pensar
elos de ligação com o sagrado. O candomblé é uma religião de matriz africana que
chegou ao Brasil por meio da escravidão e do tráfico negreiro, sendo assim, essa
religião em território brasileiro é consequência da migração forçada dos homens
e mulheres africanos que foram escravizados (REIS, 2018). Logo, os princípios e
os fundamentos da religião não são baseados em premissas europeias de conquista
e “benção”, não é como acontece no protestantismo, onde o indivíduo deve
executar a sua vocação que foi lhe dada por deus, porque os homens precisam
estar trabalhando e produzindo bens importantes e úteis para a comunidade, e
seguindo assim, o modelo racional capitalista proposto para o desenvolvimento
de uma vida baseada na racionalidade na classe burguesa que estaria em ascensão
na modernidade (WEBER, 1905).
O
centro do trabalho nos barracões não é o indivíduo, é o divino e o conjunto de
pessoas. A filosofia africana que se chama “ubuntu” pode exemplificar esse
forte senso de comunidade, que significa “eu sou por que nós somos”. Ou seja, a
partir desse modo de entender a relação com as “coisas”, percebe-se que a
individualidade ocidental e padronizada não é o que coordena as ações dos
agentes, mas sim, o senso de coletividade, a interdependência das pessoas, como
é o mutualismo dado pela biologia, onde uma espécie trabalha com outra, em uma
relação onde as duas se beneficiam. Essa é a forma africana de pensar indivíduo
e sociedade, pode-se resgatar até os conceitos de Durkheim, na analogia da
sociedade como um corpo humano, onde todas as partes desse “corpo” dependem uma
das outras, pois, a partir dessa forma epistêmica de entender o indivíduo, ele
não é só ele mesmo, mas é dado a partir da relação com o todo.
Sendo
assim, pode-se notar como essa filosofia africana é uma leitura válida para os
trabalhos executados dentro das casas de santo por essas mulheres, afinal,
segundo a egbomi o candomblé é uma religião matriarcal, onde antigamente, os
homens não poderiam adentrar a cozinha e não poderiam saber o que lá ocorria,
pois era um segredo que ficaria guardado apenas entre as mulheres. Logo, as
tarefas executadas dentro dessas cozinhas eram uma forma de estar em contato
com o divino, mas de uma maneira onde só mulheres poderiam acessar. Como é o
caso que a antropóloga Elsje Maria Lagrou descreveu em uma de suas pesquisas, Uma etnografia da cultura Kaxinawa entre a
cobra e o inca, onde foi estudar a arte gráfica e acabou encontrando algo
valioso e não usou de concepções ocidentais eurocêntricas para entender o que
lá ocorria, que era: os homens poderiam usar a ayahuasca, e durante o transe alcançarem
o sagrado, mas as mulheres estavam privadas desse ato. No entanto, durante o
tempo que ela foi a campo, percebeu que as mulheres alcançavam o sagrado o
tempo todo, durante suas tarefas diárias, na confecção das artes desse povo,
enquanto os homens só poderiam estabelecer essa conexão a partir da ayahuasca.
Isso converge um pouco com o fato de que as mulheres no candomblé alcançavam o
divino por meio da execução das tarefas, que ficaria na esfera na “reprodução
social”, e dominavam esses espaços sem permitir a entrada dos homens, o que acabou
mudando conforme o tempo e o espaço.
Se
faz necessário ressaltar que o Candomblé não é uma religião como o
cristianismo, que tem uma tradição de estar escrito e possuir livros, o
candomblé e seus mitos são dados a partir das músicas, que também é um diálogo
com os Orixás. Dessa forma,
pode-se ter em vista que a forma epistêmica, nesse sentido, se difere da que as
Américas têm como modelo, devido às invasões e colonizações europeias, onde a
história oral é desqualificada em vista de se ter tudo contado de forma escrita
a partir de documentos. Dada essa configuração de conhecimento, alguns mitos
podem possuir diferentes versões e leituras diversas, mas não deixam de ser
valiosos e se tornam mais complexos ainda. Sendo assim, é uma perspectiva que difere
do que Voltaire postulou, onde o mesmo acreditava na importância do documento
para o “fazer história”, pois para ele, se distinguiria da fábula, onde esta
seria uma narração de fatos considerados falsos, enquanto a história seria uma
narração de fatos considerados verdadeiros, sendo assim, a base dos fatos
verdadeiros, por conseguinte da história estaria nos documentos.
Experiência vivida
Como o assunto aqui tratado será sobre o
trabalho realizado por mulheres dentro das casas de santo de candomblé, é
importante entender como a hierarquia se estabelece dentro dessa religião. O
iyawo, é aquele que recebe santo e possui menos de 7 anos de iniciação na
religião, sendo homem ou mulher, a ekedi é uma mulher que não recebe santo e
tem como função auxiliar o orixá, dançando com ele, por exemplo, e por último, o
egbomi é quem possui mais de sete anos de santo, podendo ser chamado de “pai”
ou “mãe” pelos mais novos, assim como as ekedis. A hierarquia dentro dessa
religião é dada conforme os anos a partir da feitura de santo e o cargo que
aquela pessoa ocupa, nos dias que fui a campo ouvi de alguns integrantes da
casa de santo que a ekedi é quem já nasce com “a bunda na cadeira”, pois, mesmo sendo nova de santo, dentro da
hierarquia é alguém que já “nasceu para o orixá” em uma posição mais elevada.
Logo, essa hierarquia também influencia na divisão de tarefas dentro dos
barracões.
A
iyawo que foi consultada definiu como trabalho algo que vai desde varrer o chão
até o cuidado com os orixás, como a egbomi, que definiu o mesmo como “cozinhar
durante 18h diárias dentro de uma igbé” e também fazer a “preparação e a
arrumação das festividades e função”. Esse trabalho varia conforme os anos de santo,
a egbomi relatou que “quanto mais velho de santo a pessoa é, mais tarefas ela
executa”, e a iyawo disse que “os mais velhos ficam encarregados de executarem
as tarefas mais importantes, no entanto, se tem um trabalho para ser feito,
como na limpeza do barracão, ele é executado por qualquer um, pois, a casa de
santo é como a sua própria casa, e ninguém quer viver na sujeira”.
Outro
questionamento feito às essas mulheres de axé foi sobre o porquê de executarem
essas tarefas, de limpeza do espaço de culto aos Orixás, por exemplo, se não
existe remuneração financeira, a iyawo disse que como a casa de santo é sua
segunda casa, você deve tratá-la com o mesmo apreço que trata o seu lar,
afinal, naquele espaço também existe uma família, não uma família nuclear como
a cultura europeia propõe, mas sim, uma grande família composta pelo
babalorixá³, ogãs, ekedis, egbomis, iyawos, abians, etc. Além disso, enquanto
essas pessoas executam quaisquer tarefas dentro dos terreiros, elas alcançam o
sagrado e estabelecem uma conexão com os orixás, recebendo até mesmo algumas
respostas para perguntas que os rondam. Já a egbomi, analisou isso de maneira
semelhante, respondendo que é pela fé que se executa todas essas tarefas dentro
dos barracões e que as pessoas louvam o sagrado o tempo inteiro dentro dos
terreiros, também disse que “se não for pelo trabalho, a gente não alcança o
divino nunca, afinal, tudo é um trabalho dentro do barracão”.
Essas
mulheres também relataram a coletividade supracitada na execução das tarefas,
dizendo que “quem cozinha pra um, cozinha pra todos”, e que uma mesma pessoa
executa diferentes funções, quem troca a água da quartinha, por exemplo, também
varre o chão, também lava o banheiro e a louça, e às vezes, tudo isso ao mesmo
tempo, dependendo da demanda das tarefas que devem ser feitas. Ou seja, não há
uma especialização do trabalho, como vemos por exemplo que era a dinâmica do
início da revolução industrial, onde um único indivíduo só era responsável por
uma parte do processo, fazendo movimentos repetitivos e sempre executando a
mesma função, as dinâmicas de trabalho dentro dessa religião afro-brasileira
não convergem com as dinâmicas industriais fordistas. Dessa maneira, para usar
os termos que estudiosos do trabalho usam, os trabalhos executados dentro dos
terreiros estão solicitando muito mais um indivíduo “bussiness”, que executa várias tarefas ao mesmo tempo, do que esse
indivíduo, marcado por uma superespecialização do trabalho, que só executa uma
única tarefa repetitivamente e exaustivamente. Dentro do terreiro é bem mais
dinâmico, e as pessoas executam as tarefas por completo e também, diferentes
tarefas que vão “incrementando” novos itens com o passar dos anos e tornando-se
mais complexas.
Logo,
é possível observar que a hierarquia do candomblé está em relação com o
trabalho executado, pois, apesar de todos poderem executar as tarefas mais
simples, as mais complexas ficam sob a responsabilidade de quem é ingressou na
religião há mais tempo, pois, possui mais conhecimento do que abians e yawos,
por exemplo. No entanto, os anos de vida da pessoa também contam para a
execução das tarefas, como a iyawo relatou, ou seja, os mais novos ficam
responsáveis por tarefas mais pesadas, que demandam mais força física, afinal,
os limites biológicos de idosos, por exemplo, os impede de executarem essas
tarefas com a mesma facilidade que alguém mais novo. Logo, a partir dessa
dinâmica, também é possível perceber que o senso de comunidade se faz presente em
cada ato, onde um ajuda e faz pelo outro o que pode dentro dos seus limites. Pois,
como já fora dito, os terreiros são como o seu lar, e as pessoas que dele fazem
parte constituem sua família, uma família de santo, com pais, mães, irmãos e
irmãs, e essas relações se estabelecem a partir do elo com o terreiro e com os
orixás.
Uma reconfiguração de importância
A
partir do entendimento da operação da divisão de tarefas e que tipos de tarefas
são essas, se faz perceber que os conceitos marxistas de mais-valia não são
aplicáveis às demandas de trabalho dentro dos terreiros. Pois, os trabalhos executados dentro das casas
de santo seriam enquadrados como trabalho que fazem parte da esfera privada,
agindo sob a lógica da reprodução social e fazendo uso de um tempo que não pode
ser totalmente calculado e controlado, além do aspecto principal: não ser
remunerado. Ou seja, o valor a mais sobre o trabalho do proletário que é o
patrão lucra explorando o seu empregado, configurando assim a mais valia, não
faz parte dessa dinâmica. Porque segundo a obra marxista, esse trabalho de
reprodução social faria parte da natureza humana, diferentemente da maioria dos
estudos sobre indivíduos e sociedade, esse “humano” que o Marx se refere é
mulher. No entanto, as mulheres não são acionadas para integrar o debate, mas
sim, para serem colocadas no campo da natureza, com a execução das tarefas
domésticas que são determinadas biologicamente, enquanto os homens formariam o campo
da cultura, nessa dualidade entre natureza e cultura, pois esses homens se
guiariam pela razão, ao contrário das mulheres, e deveriam ficar responsáveis
pela execução das tarefas de produção social.
Dessa
forma, essa dinâmica de trabalho que acontece nos barracões também faria parte
da esfera de reprodução social e se colocaria como algo biológico, ainda mais
por ter um predomínio de mulheres. No entanto, as mulheres nessa religião não
são tidas como frágeis, como no cristianismo por exemplo, e os mitos das Orixás
são ótimas formas de perceber como essa religião entende a construção do que é
ser mulher, como os mitos de Oxum, que apesar de sua extrema beleza é também
contada como cruel e violenta (REIS, 2018).
Por isso, aplicar padrões eurocêntricos à leitura dos trabalhos
executados dentro dessa religião limita e simplifica as dinâmicas. Pois, apesar
de esse tipo de trabalho ser “enquadrado” dentro da esfera de reprodução social
não faz com que ele seja valorado de forma diferente, colocado como algo
inferior ao trabalho de produção social, por exemplo. Em certa medida, acontece
justamente o contrário, onde as pessoas que hoje fazem parte do Candomblé
deverem abdicar das suas tarefas cotidianas, dos trabalhos na esfera pública
para estarem compartilhando as tarefas com seus “irmãos” dentro da casa de
santo. Pois, é de extrema importância que esses indivíduos dividam as tarefas e
estejam naquele espaço para poderem cultuar seus Orixás e manterem esse elo com
o divino.
Sendo
assim, o trabalho executado dentro dos terreiros não se diferencia somente do
trabalho encontrado na esfera da produção social, se diferencia também da
execução de tarefas dentro de uma igreja, sendo ela católica ou protestante.
Pois, quando pessoas se reúnem para fazerem comidas para uma festividade que
irá acontecer, por exemplo, elas não fazem aquilo de graça. Essa comida, seja
ela qual for, será vendida aos “irmãos” que quiserem comê-la. Portanto, é
percebido que apesar de existir também essa relação de irmãos dentro das
igrejas, o trabalho executado não é para que todos possam acessar, mas sim, para
quem quiser e puder comprar. Percebi isso após uma conversa com uma membra da Assembleia
de Deus, que vende suas empadas nas festividades dentro dessa comunidade
religiosa. Ela entende que se oferecer seu serviço de graça estará em
desvantagem, pois, além de gastar material para preparar as empadas, ela também
calcula o tempo “gasto” para prepará-las, ou seja, a sua mão de obra.
Logo,
é possível perceber que as dinâmicas da execução de tarefas obedece aos
“preceitos” do capitalismo, visando não o compartilhamento do alimento para
todos os irmãos, como no candomblé, mas sim, o lucro obtido a partir da venda
de seus produtos, mesmo que ocorra a mesma dinâmica da organização de uma
família, na igreja todos são irmãos pois são filhos de deus, enquanto no
candomblé tem outras questões que não envolvem apenas os Orixás, mas sim,
questões de hierarquia como já foi supracitado.
Portanto,
é possível observar que dentro dessa religião de matriz africana, a execução
das tarefas se concebe de forma que o compartilhamento, tanto das tarefas
quanto do produto final desse trabalho sejam os mais importantes, e não o
lucro, portanto a lógica capitalista não alcança esse meio. Além disso, apesar
desse trabalho - de limpeza e preparo da comida - executado dentro dos
terreiros ser praticamente o mesmo que as tarefas domésticas executadas por uma
dona de casa, por exemplo, ele não é invisibilizado ou inferiorizado, como
mostra Angela Davis em Mulheres, raça e
classe, na dinâmica dentro de casas com empregadas domésticas e donas de
casa. Dentro dos terreiros, esses trabalhos são respeitados como de suma
importância para quaisquer outras coisas, como as festas, por exemplo. Como a
fala da egbomi trouxe acima, “tudo dentro do barracão é trabalho”.
Considerações Finais
A
partir de entrevistas feitas a mulheres que integram uma casa de santo de
candomblé, juntamente com leituras feitas a partir de obras que tratem sobre
trabalho, candomblé, cultura africana e modernidade, foi possível entender o
caráter da execução das tarefas dentro dos terreiros.
Essas
mulheres que se propõem a executar tarefas sem remuneração fazem isso não só
por entenderem que compõem uma comunidade onde todos devem partilhar do mesmo
alimento, e que a divisão das tarefas de forma compartilhada seja o melhor meio
de não sobrecarregar uma só pessoa, mas também, a partir da execução daqueles
trabalhos da esfera da reprodução social serem uma forma de estar em ligação
com os orixás e com outras entidades sagradas do Candomblé.
Assim
como pressupõe Clavert (2009), a educação tradicional negro-africana é coletiva
e integradora. Dessa forma, os produtos que se originam dessa educação também
seguem esse caráter, como o Candomblé, uma religião afro-brasileira, fruto de
adaptações para a manutenção das crenças dos homens e mulheres que foram
escravizados e trazidos para o Brasil através do tráfico negreiro.
Através
dessa pesquisa foi mostrado essas características presentes na forma como se dá
a execução das tarefas feitas por mulheres dentro dos terreiros. O modo contra
sistêmico que opera esse trabalho não remunerado e coletivizado em um sistema
capitalista. Na verdade, a manutenção das crenças por essas pessoas
escravizadas fora contra sistêmica desde que essas pessoas vieram para esse
país, visto que era um país colonial escravocrata, de modo que tentava ao
máximo apagar a cultura africana a fim de tentar acabar com quaisquer
possibilidades de resistência e da manutenção de uma identidade positiva a
respeito de si mesmo enquanto um indivíduo negro. No entanto, a história nos
mostra que felizmente isso não foi possível, e Zumbi dos Palmares é uma das
grandes referências quando se pensa em escravidão e resistências no Brasil.
Logo,
conhecer outras formas do que pode configurar um trabalho e como esse trabalho
pode ser executado, é de extrema importância em um sistema que só considera
relevante a cultura ocidental europeia. Essa pesquisa contribuiu para entender
a forma de organização do trabalho dentro dos terreiros de Candomblé, que são
ancorados em perspectivas africanas de entendimento do trabalho e do local das
mulheres nessa dinâmica dentro das comunidades.
Sendo
assim, compreender que existem formas outras de pensar quaisquer elementos que
compõem a sociedade que não os tidos como superiores, modelos e civilizados até
hoje, que é qualquer pensamento de origem europeia, é importante para o
respeito a diversidade de epistemologias sobre a compreensão das formas como as
pessoas se agrupam. Dessa forma, o conhecimento da epistemologia africana a
respeito do trabalho contribui para a construção de um conhecimento mais rico e
pluparadigmático, deixando para trás teorias mais simplistas, excludentes e
supremacistas.
Ademais,
conhecer e divulgar o conhecimento construído a partir de uma perspectiva
africana também contribui para a confecção de uma identidade negra positivada a
respeito de si mesmo, ainda mais em um país racista como o Brasil, que
construiu ao longo de toda a história imagens negativas a respeito do povo
negro, que impactam no olhar que essas pessoas têm para si mesmo, para o seu
povo e para sua cultura. Também é fundamental a reverberação desse conhecimento
para o campo da educação, mostrando que existem conhecimentos não europeus tão
ricos quanto esses que sempre foram privilegiados ao longo da história.
Pensar
no caráter dessas tarefas executadas no interior dos barracões é também pensar
alternativas a construção do trabalho que são diferentes das que nos habituamos
como modelo, portanto, passar a questionar o que antes não era problematizado a
partir de novas possibilidades de entender o trabalho e o que configura essa
prática tão crucial para o sistema econômico capitalista.
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[1] Graduanda
em Ciências Sociais na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro - UFRRJ

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