Como a presença europeia exerce, de forma indireta, influência sobre a vida das populações indígenas?
Nathara Marriel Mariano[1]
“Sabemos menos do que deveríamos,
mas felizmente ainda podemos saber mais. Para avançar cumpre fazer as perguntas
certas.”[2]
Introdução
A habitação de
indígenas em terras sul-americanas é muito anterior ao Brasil, ou seja, muito
anterior a formação de um Estado nacional centralizado denominado “Brasil”.
Porém, não apenas isso, muito antes de qualquer europeu caminhar por terras do
“novo mundo”, ou até mesmo de saber de sua existência, aqui já estavam os
grupos indígenas. Neste, esses indígenas construíram sistemas de organizações sociais
complexos, não isolados, mas com alto nível de articulação [3]. Nesta terra, haviam
comunidades étnicas, organizadas à sua maneira, com suas peculiaridades e suas
crenças, permeados por um aparato cultural tão complexo como qualquer cultura
europeia existente. Sendo assim, podemos notar que, muito antes dos europeus
chegarem à América do Sul, os indígenas aqui presentes, em todo caso, se
organizavam de uma certa maneira, e também possuíam um certo estilo de vida,
mesmo que esse diferisse muito dos europeus.
Entretanto,
quando os europeus resolvem desbravar o “novo mundo”, os mesmos se deparam com
essas comunidades étnicas, tão diferentes do padrão europeu, o qual, essas
pessoas estavam acostumadas. Antes de chegar à América, de forma física, os
europeus acreditavam que esta era uma terra sem dono, fato esse que
posteriormente não mudará muito. Porém, ao chegar à América e se depararem com
os grupos indígenas aqui existentes, os europeus perceberam que, apenas a
guerra não seria a melhor opção para dominar esta terra. Os europeus como um
todo, usaram de inúmeros artifícios não violentos, embora a violência tenha
existido em grande parte, para construir uma forma de relação com os indígenas.
Os europeus perceberam que, nesta terra, sua estadia apenas seria possível com
a ajuda dos indígenas, pois, como defende Maria Celestino:
Essa Aliança,
típica dos primórdios da colonização nas Américas portuguesa e espanhola,
expressa a mútua dependência entre os grupos envolvidos e os diferentes
interesses que os motivaram ao acordo, cada qual relacionado à dinâmica de suas
respectivas organizações sociais. [4]
Desta
forma, devemos pensar nessas relações, sejam elas previamente pensadas ou não,
de uma forma a ser algo de extrema importância para a formação, não só do
Brasil como Estado, mas também, da formação de uma nova inserção cultural
dentro desses grupos indígenas.
Portanto,
a interação entre indígenas e europeus é o epicentro norteador deste trabalho.
Pois, acreditamos que, os grupos habitantes da América antes da chegada dos
europeus, eram grupos extremamente diferentes dos que teremos depois, com a
influencia europeia sendo ativa. Para além de tudo que já sabemos sobre
violência e genocídio indígena, os quais, foram proporcionados pelos europeus
em terras sul-americanas, nos cabe pensar sobre os traços culturais, os quais,
foram influenciados por essa conexão com a Europa. Vale ressaltar que, o
próprio nome “índio”, foi algo dado pelo homem europeu para designar uma
variedade étnica presente na América [5], desta forma, podemos
compreender que, muitos dos relatos que possuímos dos indígenas antes da
colonização, foram feito por homens europeus, os quais, podem não ter entendido
nem compreendido a complexidade daquela população.
Sendo
assim, este trabalho será norteado, não apenas pelas influencias obvias, as
quais já conhecemos, que advém da Europa e se insere na cultura indígena, mas
sim, o questionamento norteador será sobre, como a presença europeia exerce, de
forma indireta, influencia sobre a vida das populações indígenas? Pois, desta
forma, poderemos compreender mais afundo, como as atitudes e ações dos
europeus, exerceram influências dentro da cultura indígena, mesmo que essa ação
não tivesse esse propósito.
Desenvolvimento
O
primeiro ponto, o qual deve ser pensado para a confecção deste trabalho, se
forma à luz do pensamento da cultura propriamente indígena. Antes da chegada
dos europeus à América, os indígenas não haviam possuído nenhum contato com
outro tipo de cultura, a qual não fosse indígena. Os próprios portugueses, em
suas comunicações, reconhecem a grande diversidade de grupos indígenas, os
quais, foram conhecidos aqui na América [6]. Desta forma, podemos
afirmar que, a cultura indígena não foi amplamente entendida em si mesmo, pelos
europeus que chegaram à América, pois, são vistos problemas acerca da
delimitação de grupos étnicos, e na própria compreensão dos portugueses, no
caso do território, o qual, se transformaria no Brasil, acerca dos indígenas [7]. Dito isso, podemos
começar a pensar em como analisar as influências europeias dentro das etnias
indígenas.
A primeira
experiência a ser analisada será a influencia da presença europeia, dentro da
cultura indígena, com relação as guerras entre tribos. A cultura da guerra
estava mais presente nas populações indígenas do passado, do que podemos
observar hoje [8],
pois, essa cultura de inimigos tribais era muito viva em algumas etnias indígenas,
até mesmo pelo ritual de antropofagia, intrínseco em algumas populações do
Brasil. Porém, após a chegada dos europeus, essas relações de guerra, e também
as relações étnicas entres essas comunidades, serão influenciadas, pois, a
presença do “estranho” dentro da realidade dessas populações, mexem e alteram
algumas lógicas de funcionamento da mesma. O novo, os outros tipos de guerras,
epidemias, as atrações por instrumentos europeus, tudo isso irá transformar e
reformular a lógica guerreira, a qual, teve contato com essa realidade [9]. Desta forma, alguns
europeus da época, discorrerão sobre a essa cultura de guerra, porém, sem
perceber que essa lógica estava sendo alterada com a presença estrangeira neste
meio. Portanto, este é um dos exemplos, o qual, nos mostra que apenas a
presença do novo nesse território, vai alterar algumas das noções dessas
comunidades, mesmo que de forma não pensada.
O segundo exemplo
a ser analisado como principal para este trabalho, está em algumas concepções
formadas pelos grupos étnicos, acerca de sua língua nativa. No século XVII,
chega ao Brasil uma série de medidas, as quais, possuem como o objetivo,
integrar os indígenas à sociedade colonial [10]. Essa motivação por uma
integração indígena à sociedade, a qual, não havia sido ponto de preocupação
para Portugal até o momento, acontece à luz da necessidade portuguesa em manter
o seu território. Dito isso, podemos expressar que, entre muitas regras
impostas nesse momento, o uso obrigatório do idioma português está entre elas.
Sendo assim, muitas escolas são criadas, como intuito de ensinar aos indígenas
o português, com o intuito também de suprimir o idioma nativo dessas pessoas.
Entretanto,
o projeto de implementação do português não foi de todo um sucesso. Puderam ser
enxergadas a permanência de alguns costumes, os quais, os colonos tentavam de
todo modo suprimir durante o tempo na escola [11]. Mas não apenas costumes,
apesar de tentarem de forma veemente introduzirem a língua portuguesa, os
indígenas optaram por manter, em certa medida, seu idioma nativo. Desta forma,
os portugueses fizeram algo que não era sua intenção, pois, ao relacionarem os
costumes e a língua, eles suscitaram a visão dos nativos para como a língua era
um fator diferenciador de sua origem [12]. Ou seja, ao tentar
suprimir o idioma nativo, os portugueses acabaram despertando os indígenas para
um aspecto formador de sua identidade, que seria a língua, fracassando assim na
total supressão dos costumes indígenas. Desta forma, podemos compreender como,
uma ação de Portugal, pensada para obter um resultado, acaba por obter outro,
completamente diferente, o qual, vai alterar a forma de pensamento dos nativos
Americanos para com um traço de sua cultura.
Para embasar nossa
afirmativa, podemos nos ater a afirmação de Maria Celestino, sobre a capacidade
de mudança dos indígenas, a qual defende que:
Abandonando a ideia de cultura
autêntica de fixa, limitada por mecanismos tradicionais e constrangedores, as
pesquisas etno-históricas têm revelado a extraordinária capacidade dos índios
em reelaborar comportamentos, atitudes e valores, alterando suas relações e até
mesmo suas histórias e identidades.[13]
Desta
forma, podemos entender que, o contato com o diferente, nesse caso o homem
europeu, possibilitou não mudanças na cultura indígena, a qual, como qualquer
outra cultura, não é imutável, e sim, adaptável a inúmeras possibilidades, as
quais, possam ser apresentadas.
Conclusão
Desta
forma, podemos concluir que, muito antes dos europeus chegarem à América, aqui
já haviam comunidades complexas de indígenas, as quais, se organizavam e viviam
de certa forma. Porém, o contato com os europeus, com o novo e o diferente,
pode alterar a lógica de vivencia dessas comunidades, de forma que, os nativos
absorverão e se adaptarão a realidade da convivência com o povo europeu.
Dito
isso, podemos observar a influência europeia na cultura da guerra dos nativos
americanos, pois, essa realidade vai ser alterada com a inserção dos europeus
no território. Em contrapartida, observamos como uma ação europeia, a qual,
tentou suprimir a língua nativa dos indígenas, conseguiu despertar nos mesmos,
uma visão para o idioma como um traço diferenciador de sua cultura. Portanto,
notamos o quão forte é a presença, não apenas da cultura europeia, mas também
das ações tomas pelos europeus, as quais, poderiam alterar a realidade dos
nativos aqui viventes.
Sendo
assim, concluo o trabalho chamando a atenção para a capacidade de adaptação dos
indígenas, e o traço de reconhecimento, em si mesmo, da cultura desses povos, a
qual, foi alterada, e por muitas vezes massacrada, com a chegada dos europeus à
América. Pois, devemos pensar nesses povos como extremamente complexos de serem
entendidos, e com uma carga cultural muito rica, a qual, pode ter se perdido,
ou se modificado, com o contato europeu.
Referências
Bibliográficas
ALMEIDA,
Maria Regina Celestino. ‘Os índios e a conquista do Rio de Janeiro’ In: Metamorfoses
indígenas: identidade e cultura nas aldeias coloniais do Rio de
Janeiro. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2003.
FAUSTO, Carlos. Os índios antes do
Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.
GARCIA,
Elisa Frühauf. ‘O projeto pombalino de imposição da língua portuguesa aos
índios e a sua aplicação na América Meridional’ In: Tempo: revista
do departamento de História da UFF. Niterói, vol. 12, n. 23, jul-dez, 2007.
p.33-48.
[1] -
Graduanda em Licenciatura Plena em História (UFRRJ)
[2] - FAUSTO, Carlos. Os índios antes do
Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 2000. p, 1.
[3] - Ibdem
[4] - ALMEIDA, Maria Regina Celestino. ‘Os índios e a conquista do
Rio de Janeiro’ In: Metamorfoses indígenas: identidade e
cultura nas aldeias coloniais do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Arquivo
Nacional, 2003. p.45.
[5] - ALMEIDA, Maria Regina Celestino. ‘Os índios e a conquista do
Rio de Janeiro’ In: Metamorfoses indígenas: identidade e
cultura nas aldeias coloniais do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Arquivo
Nacional, 2003. p.46.
[6] - ALMEIDA, Maria Regina Celestino. ‘Os índios e a conquista do
Rio de Janeiro’ In: Metamorfoses indígenas: identidade e
cultura nas aldeias coloniais do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Arquivo
Nacional, 2003. p.47.
[7] - ALMEIDA, Maria Regina Celestino. ‘Os índios e a conquista do
Rio de Janeiro’ In: Metamorfoses indígenas: identidade e
cultura nas aldeias coloniais do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional,
2003. p.48.
[8] - FAUSTO, Carlos. Os índios antes
do Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 2000. p, 1.
[9] - ALMEIDA, Maria Regina Celestino. ‘Os índios e a conquista do
Rio de Janeiro’ In: Metamorfoses indígenas: identidade e
cultura nas aldeias coloniais do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Arquivo
Nacional, 2003. p.48.
[10] - GARCIA, Elisa Frühauf. ‘O projeto pombalino de imposição da
língua portuguesa aos índios e a sua aplicação na América Meridional’ In: Tempo: revista
do departamento de História da UFF. Niterói, vol. 12, n. 23, jul-dez, 2007.
p.24.
[11] - GARCIA, Elisa Frühauf. ‘O projeto pombalino de imposição da
língua portuguesa aos índios e a sua aplicação na América Meridional’ In: Tempo: revista
do departamento de História da UFF. Niterói, vol. 12, n. 23, jul-dez, 2007.
p.36.
[12] - GARCIA, Elisa Frühauf. ‘O projeto pombalino de imposição da
língua portuguesa aos índios e a sua aplicação na América Meridional’ In: Tempo: revista
do departamento de História da UFF. Niterói, vol. 12, n. 23, jul-dez, 2007.
p.37.
[13] - ALMEIDA, Maria Regina Celestino. ‘Os índios e a conquista do
Rio de Janeiro’ In: Metamorfoses indígenas: identidade e
cultura nas aldeias coloniais do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Arquivo
Nacional, 2003. p.49.

Muito bem escrito!! Me fez lembrar das Aulas de História do Brasil que tive durante a graduação. ❤
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