O RETRATO DA MÃE DE SANCHA: Dom Casmurro, a isenção do masculino e o reflexo patriarcal de fins do século XIX ao século XXI.

Gabriela Gomes Cerqueira[1]

RESUMO

O presente trabalho busca trazer uma breve reflexão sobre um famoso questionamento da literatura brasileira: “Capitu traiu ou não traiu Bentinho?”[2]. Nossa ideia é debater, como escreveu Helen Caldwell[3], a forma como Dom Casmurro (1899) deixou a questão da culpa ou inocência de Capitu para juízo do leitor. Buscamos, em suma, entender quando a relação entre observador e objeto se inverte e o que a obra escrita por Machado de Assis pode revelar sobre a isenção do masculino, da época em que foi publicado até os dias atuais.

Palavras-chave: Dom Casmurro; Machado de Assis; Machismo; Feminismo.

INTRODUÇÃO

A primeira vez que coloquei as mãos em Dom Casmurro, eu estava na agora extinta 6ª série do ensino fundamental. Não passei das dez primeiras páginas, pois pouco ou nada compreendia das palavras ali escritas. Já no Ensino Médio, como um exercício literário, fomos obrigados a ler e reler este clássico machadiano e, ao fim do período, deveríamos não apenas formar um tribunal completo, com juiz, júri, testemunhas, advogados e promotores, como também dar um veredicto, uma sentença muito bem embasada. Pois, afinal, Capitu traíra ou não traíra Bentinho?

Aos 16 anos eu já me considerava uma feminista. E, para mim, parecia impensável existir alguém, ou ao menos alguma mulher, que não o fosse. Ao terminar minha leitura eu estava convicta de que não, Capitu não havia cometido adultério. E não conseguia sequer conceber o porque de estarmos nos fazendo esta pergunta.

Nossa turma fora dividida em dois grupos. Ambos livres para chegar à conclusão que quisessem, desde que a comunicassem através de um pequeno show teatral onde encenaríamos o “julgamento de Capitu”. Aquela se tornou minha cruzada, Capitu virara para mim uma espécie de heroína injustiçada. Por isso, escrevi um roteiro, editei falas, nomeei personagens, construí argumentos favoráveis e desfavoráveis à sua defesa. Montei um caso completo, donde pretendia, de uma vez por todas, absolver Capitolina das injúrias que se tinham abatido sobre ela.

          Foi nesse frenesi que me familiarizei com diversos autores que se dedicaram a estudar tal tema. Dentre eles, a norte-americana Helen Caldwell (1904-1987), pesquisadora e professora da Universidade da Califórnia, especializada na obra de Machado de Assis. Caldwell traduziu diversos livros do autor brasileiro para o inglês, como Helena, Esaú e Jacó e, claro, Dom Casmurro. Em 1960, a autora publicou “The brazilian Othello of Machado de Assis”, um estudo comparando o romance brasileiro à famosa obra de William Shakespeare, onde Otelo, cego de ciúmes, mata sua esposa Desdêmoda por um adultério que ela não havia cometido.

Em artigo publicado pela Folha de São Paulo em 2002, Caldwell foi referida como “advogada de defesa” de Capitu, papel que assume ao “reabrir o caso” no qual Capitu fora considerada culpada. Em sua obra a autora faz a seguinte pergunta: “por que o romance é escrito de tal forma a deixar a questão da culpa ou da inocência da heroína para decisão do leitor?”.

Mais importante talvez, seja nos questionarmos o porquê de gerações terem condenado Capitu e o porquê de ainda nos indagarmos sobre sua conduta mesmo que não tenhamos nada além do relato de Bento Santiago.

Nesse sentido, o que Dom Casmurro nos ensina sobre a sociedade brasileira da época em que foi publicado e o que nos têm dito sobre a sociedade brasileira atual?

 

O OBJETO

Com início na Europa, mais especificamente na França, o Realismo foi uma resposta ao artificialismo do Neoclassicismo e ao sentimentalismo exacerbado do Romantismo. Foi também o reflexo de um momento conturbado da história do continente, recheado de revoltas sociais e de insatisfação política.

No Brasil, o Realismo teve início da segunda metade do século XIX, com a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas, também de Machado de Assis. O país, assim como a Europa, vivia um momento agitado que representou o declínio da sociedade aristocrático-escravista e uma gradativa ascensão do capitalismo industrial.

Este movimento literário tem como característica principal demonstrar a realidade de maneira contemporânea e verossímil. Com linguagem direta e objetiva, a narrativa descritiva e detalhada remonta cenários urbanos e ambientes sociais, aborda temas do dia-a-dia, faz críticas à sociedade e aos valores da época, cria personagens comuns e os analisa psicologicamente.

Como apontaram os teóricos Erich Auerbach, Ian Watt e Franco Moretti, citados por André Dutra Boucinhas em artigo publicado em junho de 2015, na Revista Piauí, retratar o cotidiano de forma minuciosa e verossímil é a própria essência do romance nos séculos XVIII e XIX. Não obstante, tal “atenção à realidade” é capaz de transformar essas obras de ficção em objetos de estudo relevantes para as ciências socias, a História e outras áreas, conforme salientou Boucinhas. Posto isto, é plausível considerar Dom Casmurro um retrato da sociedade brasileira do período em que foi escrito.

No entanto, não tenho aqui a intenção de fazer um exame sobre a sociedade retratada na obra, mas a de tecer uma breve análise sobre a sociedade refletida através dela. Embora ambas estejam entrelaçadas, a primeira é um retrato, reproduzido dentro da obra, a respeito da sociedade contemporânea à publicação de Dom Casmurro. A segunda, por sua vez, é um reflexo, externo à obra, que expõe o “rosto” da sociedade que a lê, pela forma como essa sociedade a lê.   

Se imaginarmos Dom Casmurro como sendo um espelho, teríamos uma reprodução da imagem de quem nele olhasse. Ao deixar a questão da culpa ou da inocência de Capitu para decisão do leitor, Machado de Assis nos diz mais sobre quem lê a obra do que sobre a própria obra em si. Aqui, a relação entre observador e objeto se inverte e o que é lido, revela a imagem de quem lê.

A RECEPÇÃO

          Dentre as primeiras recepções críticas de Dom Casmurro, estava a de José Veríssimo:

Não sei se acerto, atribuindo malícia ao pobre Bento Santiago, antes que se fizesse Dom Casmurro. Não, ele era ingênuo, simples, cândido, confiante, canhestro. O seu mestre – formoso e irresistível mestre – de desilusões e de enganos, o seu professor, não de melancolia, como outro que inventou o autor de um certo Apólogo, mas de alegria e viveza, foi Capitu, a deliciosa Capitu. Foi ela, como diziam nossas avós, quem desasnou, e, encantadora Eva, quem ensinou a malícia a esse novo Adão. (Veríssimo, 1903).


Alfredo Pujol, importante biógrafo de Machado de Assis também escreveu acerca de Capitu:

Capitolina – Capitu como lhe chamava em família – traz o engano e a perfídia nos olhos cheios de sedução e de graça. Dissimulada por índole, a insídia é nela, por assim dizer, instintiva e talvez inconsciente. (PUJOL, 1934, p. 238).

Ardilosa e pérfida, acautelada e fingida, Capitu soube ocultar aos olhos do marido sua ligação criminosa com Escobar. (PUJOL, 1934, p. 247).

Esse foi o tom, não apenas das primeiras recepções críticas da obra, mas também de todas as discussões que a ela sucederam, nacional e internacionalmente.

Como escreveu Ana Cláudia Salomão da Silva[4], “durante meio século, a recepção crítica de Dom Casmurro tomou a palavra de Bentinho como a “verdade” do romance” (2015, p. 20).

Bento Santiago é o bom moço enganado pela esposa. A Capitu, ainda que admiradas beleza e inteligência, resta a abundância do mau adjetivo: dissimulada, traiçoeira, calculista, adúltera. (SILVA, 2015, p. 20).

Tal percepção só foi interrompida na década de 1960, com Helen Caldwell, supracitada. Caldwell foi pioneira em levantar suspeitas sobre a palavra do protagonista-narrador, pavimentando um caminho que dificilmente seria ignorado. No entanto, apesar de ser um grande marco para os estudos machadianos, a obra de Caldwell só foi publicada no Brasil em 2002.

No imaginário popular brasileiro, ainda é comum encontrar posicionamentos como os de José Veríssimo e Alfredo Pujol. Quando não há a pretensão de sentenciar Capitu, tampouco existe a intenção de absolve-la, como é o caso de Dom (2003) e Capitu (2008), duas adaptações cinematográficas que, assim como o romance, deixam a dúvida no ar. Além disso, a personagem segue sendo retratada como sedutora, lascívia e manipuladora. Figura capaz de “fazer qualquer homem bom perder a cabeça”. Acrescenta-se a isso o perfil socioeconômico de Capitu, uma moça de família pobre que buscava ascensão social.

Muito se avançou na compreensão dos romances machadianos quando se prestou a devida atenção a características nada fortuitas dos personagens, em especial seus perfis socioeconômicos. Enxergar Capitu, como fez Roberto Schwarz em Duas Meninas, como uma figura subalterna da família Santiago acrescenta uma nova perspectiva ao romance: ele passa a ser também o relato da trajetória de uma moça que, independentemente do que sentia pelo vizinho, sabia que casar-se com ele significaria ascensão social. (BOUCINHAS, 2015)

 

O RETRATO DA MÃE DE SANCHA

Enquanto lia e relia Dom Casmurro, um trecho em particular despertou minha atenção:

Gurgel, voltando-se para a parede da sala, onde pendia um retrato de moça, perguntou-me se Capitu era parecida com o retrato. Um dos costumes da minha vida foi sempre concordar com a opinião provável do meu interlocutor, desde que a matéria não me agrava, aborrece ou impõe. Antes de examinar se efetivamente Capitu era parecida com o retrato, fui respondendo que sim. Então ele disse que era o retrato da mulher dele, e que as pessoas que a conheceram diziam a mesma cousa. Também achava que as feições eram semelhantes, a testa principalmente e os olhos. Quanto ao gênio, era um, pareciam irmãs.

- Finalmente, até a amizade que ela tem a Sanchinha, a mãe não era mais amiga dela... Na vida há dessas semelhanças assim esquisitas. (Capítulo LXXXIII, O Retrato).

 

Parecia haver então, ao longo de toda a narrativa, “pistas” que davam indícios de que deveríamos, não apenas desconfiar da narrativa de Bento, como também de suas convicções.

          A semelhança entre Ezequiel e Escobar, apontada por Casmurro como prova irrefutável da traição de sua esposa, poderia ser explicada aí, de forma despretensiosa e quase simplista: “na vida há dessas semelhanças assim esquisitas”.

Para além das “pistas” deixadas, devemos atentar para a própria narrativa da obra, sem confundir autor e narrador. Não é Machado de Assis, nem tampouco Bentinho, que traçam o relato da história. De acordo com Silviano Santiago[5], quem narra o romance é Casmurro, enfatizando o ângulo de manipulação da realidade pelo narrador:

De início percebemos que o traço mais saliente da retórica do advogado-narrador é o apriorismo. Ele sabe de antemão o que quer provar e sua peça oratória nada mais é do que o desenvolvimento verossímil de certo raciocínio que nos conduzirá implacavelmente à conclusão por ele ambicionada. Sua estruturação dos fatos, sua apresentação do comportamento humano dos personagens (inclusive de Bentinho) é informada pelo rigor da demonstração a ser estabelecida. Assim, para Dom Casmurro o essencial era provar (e sair vencedor) que o conhecimento que tinha dos atos de Capitu quando menina lhe possibilitava um julgamento seguro sobre a Capitu adulta e misteriosa. (SANTIAGO, 2000, p. 34)

Helen Caldwell faz a seguinte análise sobre a narrativa de Dom Casmurro:

No final de sua estória [...] o porquê de publicar nos atinge em cheio. Os capítulos CXXXVIII–CXL estão permeados de um ar de tribunal. Capitu está no banco dos réus. [...] No capítulo final (CXLVIII), o leitor percebe em sobressalto que foi convocado como jurado. A "narrativa" de Santiago não passa de uma longa defesa em causa própria. [...] O argumento funciona da seguinte forma: ele, Santiago, não é ciumento sem causa; ele não executou uma vingança injusta: Capitu é culpada. Caso os leitores o julguem inocente, ele estará limpo a seus próprios olhos. (Caldwell, 2002, p.99 e 100).

Todos os fatos são narrados de forma a levar o leitor, a enxergar como ele enxerga. Para isso, usa-se de “caro leitor”, “você leitora, minha amiga”. O livro vai sendo construído de forma sutil, sem que o leitor possa perceber para que caminho está sendo levado. Como quando escreve o capítulo “O filho é a cara do pai”, só para depois salientar que Ezequiel era a cara de Escobar e, portanto, não era seu filho. Além do mais, nas primeiras páginas, recusa a definição de José Dias aos olhos de Capitu e lhes dá a sua própria: “são olhos de resseca, que arrastavam para dentro”.  Então, lá atrás, quase no fim, diz que Escobar foi arrastado por um mar em dia de ressaca. Quais os fatos sobre a acusação de Capitu? Nenhum. Casmurro só nos apresenta indícios, hipóteses. Há suspeitas, sugestões, interpretações, mas não há fatos.

Então porquê gerações condenaram Capitu? Por que, tendo nada além do que a palavra de Santiago, continuarmos nos questionando sobre a culpa ou inocência de Capitu sem sequer interpelar a respeito das condutas de Bentinho?

Ana Cláudia S. Silva tem algo a dizer sobre isto:

O texto é assinado por Bento Santiago, e quem é ele? Moço de família rica, órfão de pai; mãe amantíssima; criado para ser padre. Boa educação, advogado. [...] Em outras palavras, um homem do tempo do Segundo Reinado no Brasil, que narra sua história passada entre 1875 e 1872. Rico, culto, vive na cidade grande como um burguês, capitalista que tem a origem da riqueza no meio rural e na exploração do trabalho escravo. Machista, assusta-se com as “ideias atrevidas” da mulher por quem se apaixona. Não gosta de política, de cujas ideias “confusas” se afasta e a elas só se refere com pilhérias. É o típico homem do período descrito por Sérgio Buarque e inserido nas “ideias fora do lugar” apontadas por Roberto Schwarz, da mesma forma que seus contemporâneos fictícios e reais – os que lhe recepcionam e analisam o texto. Bentinho fala para seus iguais. Por isso, sua palavra é tida como verdade. Seria necessária a diferença: o tempo – meio século –; a análise de uma mulher, sob um prisma feminista; o olhar do outro, o estrangeiro; a ideologia, com outros instrumentos de análise, para suscitar, pelo menos, a dúvida. (2015).

Esta é uma boa resposta para algumas de nossas dúvidas. Tão importante quanto pensarmos a forma como a personagem de Capitu foi “vendida” ao público por Casmurro, é pensarmos sobre a forma como ela foi “comprada” por esse público.

Aqui, faz-se novamente o exercício de inverter posições entre objeto e observador. Meio século de críticos, escritores, pensadores, entusiastas e indivíduos comuns culparam, acusaram, sentenciaram e condenaram Capitu, pois seu reflexo espelhado em Dom Casmurro mostrava uma sociedade fundamentalmente patriarcal, onde a palavra de um “bom homem de boa família”, soava mais alta do que qualquer incongruência ou tendencionismo do discurso.

No entanto, se Bento escrevia para os seus iguais, por quê mesmo após a “guinada” da diferença e dos questionamentos traçados por Helen Caldwell, Silviano Santiago e outros autores, ainda repousa dúvida sobre a conduta de Capitu?

A resposta pode parecer simples, mas certamente não é fácil. Apesar dos avanços conquistados pelas mulheres em espaços sociais, culturais, políticos e econômicos, ainda somos essencialmente patriarcais e machistas.

Se fizermos um breve exame das críticas proferidas por José Veríssimo e Alfredo Pujol, encontraremos lá concepções que ressoam e assombram nos dias atuais. Durante a Copa do Mundo na Rússia, realizada em 2018, torcedores brasileiros viralizaram nas redes sociais após, fazendo uso da diferença de idiomas, repetirem frases obscenas e pejorativas sobre o órgão sexual feminino enquanto gravavam um vídeo “simpático” com uma mulher russa não identificada. O que chamou atenção, mais do que o próprio caso em si, foi a repercussão que ele teve no Brasil. Diversas pessoas saíram em defesa dos homens envolvidos, dizendo tratar-se de uma “brincadeira inocente”, gravada em momento de descontração.

Basta ler os comentários publicados nas redes sociais, embaixo de alguma matéria relacionada a estupro, violência doméstica ou violência sexual contra a mulher, para se dar conta de semelhante narrativa de culpabilização da vítima. Porque sim, Capitu foi vítima. Não apenas dos delírios de Bentinho, mas de todas as gerações que a condenaram.

Não é de surpreender que a palavra de Bentinho tenha sido tida como irrefutável se, até os dias de hoje, em casos como os que acabei de citar acima, a palavra de um homem tenha mais peso do que a de uma mulher, ou muitas mulheres juntas.

 Uma pesquisa realizada em 2016 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que 42% dos homens acham que a violência sexual acontece porque a vítima não se dá ao respeito ou usa roupas provocativas. Também em 2016, uma pesquisa realizada pelos Institutos Patrícia Galvão e Locomotiva mostra que 67% dos brasileiros acreditam que a violência sexual acontece porque o homem não controla seus “impulsos”.

Os homens não são encorajados a assumirem responsabilidades, nem a arcarem com as consequências de seus atos. Assim como Bentinho, eles terão sempre o benefício, não apenas da dúvida, mas da pressuposição da inocência.

O homem (especialmente se for cis, hétero e branco) será culturalmente tratado como figura inócua, vulnerável, suscetível, manipulável. E, se algum dia se transfigurar noutra coisa, como Bentinho se transformou em Casmurro, há de ser por culpa de terceiros, nunca dele próprio.

Já a recíproca não é verdadeira. Assim como Capitu, meninas são vistas, desde novas, como "maduras", "adultas", conscientes e responsáveis por seus atos - bem com os atos alheios. Meninas negras se encontram em situação ainda mais vulnerável.

Em janeiro de 2020, após Meghan Markle e Príncipe Harry anunciarem sua saída da família real britânica, poucos não foram os comentários e programas de TV que apontavam Harry, que é três anos mais novo que Meghan, como tendo sido uma vítima da ambição e manipulação da duquesa.

Em artigo publicado no New York Times, a escritora, emissora e ex-advogada britânica Afua Hirsch apontou o racismo como motivo que levou o casal a se afastar da família real e se mudar do Reino Unido.

"O tratamento recebido por ela provou o que muitos de nós sempre soubemos: não importa quão bonita você seja, com quem se case, que palácios ocupe, instituições de caridade que apoie, como seja fiel, quanto dinheiro você acumula ou que boas ações realiza nesta sociedade, o racismo ainda lhe seguirá"[6].

Segundo estudo realizado em Georgetown, nos Estados Unidos, adultos tendem a achar meninas negras menos inocentes e mais adultas que meninas brancas.

O relatório concluiu que meninas negras parecem mais velhas que meninas brancas da mesma idade; precisam de menos apoio, sabem mais sobre 'assuntos de adulto', precisam de menos proteção e sabem mais sobre sexo que meninas brancas[7].

Para a jornalista e socióloga Fabiana Moraes, autora de “No País do Racismo Institucional” (2002), se essa pesquisa fosse realizada no Brasil, mostraria a menina negra ainda mais hipersexualizada.

As ramificações desse pensamento que inocenta homens e culpabiliza mulheres são infinitas. Desde abandono paterno e alienação parental, à responsabilização apenas da mãe no conceber e criar os filhos, passando pelos múltiplos casos de feminicídio espalhados pelo país.

Em 2013, o Conselho Nacional da Justiça (CNJ), tendo como referência o Censo Escolar de 2011, apontou que 5,5 milhões de crianças brasileiras não possuem o nome do pai registrado na certidão de nascimento. Entre todos os estados do país, o Rio de Janeiro apareceu no topo da lista.

De acordo com dados levantados pelo Instituto Maria da Penha, a cada 7.2 segundos uma mulher é vítima de violência física no Brasil. Segundo o Mapa da Violência de 2015, em 2013, 13 mulheres morreram todos os dias, em função de seu gênero. Mulheres negras são as mais vulneráveis nesse assombroso cenário. E dados mais recentes apontam que esses números têm crescido.  

O próprio ciúme delirante e doentio de Bentinho, o mesmo que levou Otelo a matar Desdêmoda, pode ser apontado como “motivação” de diversos casos de agressão e assassinato de mulheres por seus parceiros.

No país, pesquisas apontam altos números de impunidade em casos de agressão, assédio sexual e estupro. Homens cometem os mais variados tipos de inflações e abusos e dificilmente são responsabilizados por isso.

CONCLUSÃO

Casmurro escreve para saber se a Capitu da Praia da Glória já estava metida na de Matacavalos, sem nunca questionar se não era Casmurro que já estava metido em Bentinho.

Ao olharmos não apenas para a sociedade retratada dentro do livro, mas também para a sociedade refletida através dele, nos daremos conta de que, no que se refere a forma como as mulheres são vistas, tratadas e percebidas, poucas coisas mudaram em nossa mentalidade entre o fim do século XIX e o presente do século XXI.

Helen Caldwell, ao escrever seu “Otelo Brasileiro” diz que vai "reabrir o caso de Capitu" e colocar Bentinho no banco de réus. Mas ao sentarmos Bento Santiago no banco de réus, será preciso que toda uma sociedade se sente lá com ele.

É necessário, antes de nos perguntarmos se Capitu traiu ou não traiu seu marido, levantar a seguinte questão: se Dom Casmurro fosse mulher e Capitu fosse homem, se invertêssemos os papéis de gênero e mantivéssemos a história exatamente do jeito que lá está, estaríamos, até os dias de hoje, nos fazendo essa pergunta ou já teríamos chegado a um veredicto?

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

SANTI, Alexandre de. Outro livro nas entrelinhasSuperinteressante, São Paulo, 04 de nov. de 2016. Disponível em: <https://super.abril.com.br/cultura/outro-livro-nas-entrelinhas/>. Acesso em: 10 de dez. de 2018.

REALISMO. Só Literatura, São Paulo. Disponível em: <http://soliteratura.com.br/realismo/>. Acesso em: 13 de dez. de 2018.

DIANA, Daniela. Realismo no Brasil. Toda Matéria, São Paulo, 20 de nov. de 2017. Disponível em: <https://www.todamateria.com.br/realismo-no-brasil/>. Acesso em 13 de dez de 2018.

BOUCINHAS, André Dutra. O Segredo de Escobar. Revista Piauí, São Paulo. jun. de 2015. Disponível em: <https://piaui.folha.uol.com.br/materia/o-segredo-de-escobar/>. Acesso em 09 de dez de 2018.

RÚSSIA abre inquérito sobre torcedores brasileiros que constrangeram mulher. Último Segundo, São Paulo, 02 de jun. de 2018. Disponível em: <https://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2018-07-02/torcedores-brasileiros-investigacao-russia.html>. Acesso em: 12 de dez. de 2018.

UM em cada três brasileiros culpa mulheres por estupro, diz pesquisa. Exame da OAB, São Paulo, ago. de 2016. Disponível em: <https://examedaoab.jusbrasil.com.br/noticias/386291560/um-em-cada-tres-brasileiros-culpa-as-mulheres-por-estupro-diz-pesquisa>. Acesso em: 14 de dez. de 2018.

SOARES, Nana. Pesquisa: 67% dos brasileiros acham que violência sexual acontece porque homem não controla seus impulsos. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 12 de dez. de 2012. Disponível em: <https://emais.estadao.com.br/blogs/nana-soares/pesquisa-67-dos-brasileiros-acham-que-violencia-sexual-acontece-porque-homem-nao-controla-impulsos/>. Acesso em: 08 de dez. de 2018.

MENINAS negras são vistas como ‘menos inocentes’ que meninas brancas, diz estudo. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 04 de jun. de 2017. Disponível em: < https://emais.estadao.com.br/noticias/comportamento,meninas-negras-sao-vistas-como-menos-inocentes-que-meninas-brancas-diz-estudo,70001876519 > Acesso em: 02 de dez. de 2018.

MASSA, Luísa. Abandono paterno: 10 relatos mostram como ele é prejudicial. Bebê Abril, São Paulo, 25 de abr. de 2018. Disponível em: <https://bebe.abril.com.br/familia/abandono-paterno-relatos/ > . Acesso em: 14 de dez. de 2018.

HELEN Caldwell. Ateliê Editorial, São Paulo, arquivos. Disponível em: <https://www.atelie.com.br/publicacoes/autor/helen-caldwell/>. Acesso em 13 de dez. de 2018. 

ESTUPRO no Brasil: 99% dos crimes ficam impunes no país. São Paulo, 26 de nov. de 2017. Disponível em: <https://www.metropoles.com/materias-especiais/estupro-no-brasil-99-dos-crimes-ficam-impunes-no-pais >. Acesso em 18 de set. de 2020.



[1] Graduanda pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – UFRRJ

[2] ASSIS, Machado. Dom Casmurro. São Paulo: Panapaná, 2017.

[3] CALDWELL, Helen. O Otelo brasileiro de Machado de Assis: um estudo sobre Dom Casmurro. São Paulo: Ateliê Editorial, 2008.

[4] SILVA, Ana Cláudia Salomão da. Primeiras recepções críticas de Dom Casmurro – Os iguais se reconhecem – disponível em: http://periodicos.ufes.br/reel/article/viewFile/11086/7745

[5] SANTIAGO, Silviano. Uma literatura nos trópicos. São Paulo: Rocco Digital, 2000.

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